CONVOCATÓRIA

foto: Jorge Gonçalves

EXISTÊNCIAreprise

CONVOCATÓRIA 

João Fiadeiro procura 5 performers com experiência sólida em improvisação e composição em tempo real, que queiram participar no EXISTÊNCIAreprise, um projecto que é simultaneamente um workshop, uma residência e uma performance. O evento terá lugar entre 8 e 13 de Maio no CIAJG em Guimarães, no quadro da exposição Ação/Decisão com curadoria de Mariana Brandão (http://www.ciajg.pt/_acao_decisao&mop=26).

Caso estejam interessados(as), enviem para o email real.j.fiadeiro@gmail.com uma pequena bio, carta de motivação e links onde se possa ler/ver o vosso trabalho.

Data limite de entrega de candidaturas: 6 de Abril. Resposta: 13 de Abril. Período de trabalho: 8 a 13 de Maio em Guimarães.

A organização cobre despesas de deslocação em Portugal Continental, alojamento e alimentação. Será ainda pago a cada participante o valor de 150€ a título de ajuda de custo.

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EXISTÊNCIAreprise retoma a experiência do projeto Existência, que João Fiadeiro criou em 2002 com estreia no Centro Georges Pompidou em Paris. A sua dramaturgia consistia em colocar os performers em frente a um público sem qualquer tipo de partitura, ao mesmo tempo que recusava a ideia de que se tratava de uma improvisação. Era uma Composição em Tempo Real, ou seja, uma composição (uma presença, uma duração) como outra qualquer, com a (enorme) diferença de que a decisão da direção, das relações criadas e do sentido dos acontecimentos, mesmo sendo definidas em tempo real, eram ensaiadas pelos performers até à exaustão e em função de critérios e premissas absolutamente rigorosas. Critérios e premissas esses que iam sendo estabelecidas e desenhadas durante os ensaios e que deram corpo à ferramenta de Composição em Tempo Real desenvolvida por Fiadeiro até hoje. A dimensão radical e sem concessões do Existência tornou este projeto num evento chave no seu percurso e no percurso de muitos dos seus colaboradores da altura como a Ana Borralho, Cláudia Dias, Cláudio da Silva, Gustavo Sumpta, David Miguel, Rui Catalão, Mário Afonso, Márcia Lança ou Tiago Guedes.

Se os performers não sabiam ao que iam, o espectador tão pouco tinha acesso à informação de que aquilo que via não era a repetição de uma peça previamente ensaiada. Deslocava-se ao teatro e pagava o seu bilhete para ver a “nova criação de João Fiadeiro” e olhava para tudo o que se desenrolava à sua frente como se cada gesto ou decisão tivesse sido ensaiada e antecipada por um coreógrafo, por um autor. Esse olhar, carregado de expectativa (de pré-conceito), era absolutamente necessário para que o projecto cumprisse uma parte do seu desígnio: dar a um acontecimento imprevisível a qualidade de um gesto inevitável.

Existência movia-se na fronteira entre processo e produto, obra e ensaio, ação e pensamento. É essa mesma hibridez que João Fiadeiro convoca agora com esta reprise. A palavra reprise é aqui utilizada no sentido que lhe dá Kierkegaard que nos diz que “la reprise est cette “catégorie paradoxale” qui unit dans l’existence concrète ce qui a été (le “même”) à ce qui est nouveau (1′”autre”)[1]. Ou seja, não se trata de repetir o Existência, mas de retomar a sua dimensão irredutível: a experiência do desconhecido, do inacabado, do inesperado. A experiência da existência.

Nesta nova versão em Guimarães, o objeto espetáculo passa à categoria de exposição e o espectador passa a visitante que – se tiver lido estas palavras – saberá ao que vem. Mas não saberá ao certo o estatuto daquilo que está a ver (performance, ensaio, intervalo, etc) ou se o “acontecimento” está a decorrer, acabou de acabar ou está prestes a começar.

E será desse não-saber que esta reprise tratará. Durante 5 horas seguidas (das 14h às 19h) os participantes estarão na galeria, em estado continuado de performance, navegando entre o “on” (da ação) e o “off” (da preparação), com um único objectivo: misturar os dois estados ao ponto de não se conseguir distinguir o guest do host. E, no processo, criar um g.host: uma presença-coisa, sem forma definida (disforme), que tem como única função oferecer-se como tela para que o espectador projecte o seu imaginário.

[1] “O retomar pertence aquela “categoria paradoxal” que conjuga na existência concreta aquilo que foi (o mesmo) àquilo que é novo (o outro)”