Vicente de Paula em Residência no Atelier Real

Calcinha também é cueca – Experimento de videoarte/videoperformance realizado em residência artística no Atelier Real, a partir dos cartuns Alegrias de uma Calcinha, para realização do documentário/videoarte “Calcinhas e Pagús”

Vicente de Paula

Imagens e Movimentos são vida e podem morrer e renascer no vídeo, um registro do instante que não está eternizado estaticamente, sendo dinâmico e atemporal. Partindo desta ideia surge a elaboração da videoperformance/videoarte/curta Calcinhas e Pagús. A proposta inicial era fazer uma releitura da série de cartuns “Alegrias de uma Calcinha” através de ensaios fotográficos com mulheres e homens que se identificassem com a estética do feminino. Contudo, o trabalho transbordou entre as noções do vestir, despir travestir… que perpassam pela liberdade e a repressão.

A vestimenta oferece possibilidades de vivenciar os corpos. Não se trata somente do “cobrir nossas vergonhas”, como possivelmente defendem fundamentalistas reacionários. A indumentária de uma pessoa é uma espécie de manifestação de sua essência, um canal da sua subjetividade, que carrega consigo traços identitários. Além disso, ajuda a compor a personalidade e revela condições e relações sociais marcantes.

Inclusive, como elemento cênico, figurino ou não, a roupa/figurino e a caracterização dá suporte a construção de personagens e diz muito sobre eles. Até onde não existe a figura institucional da personagem ou do ato de representar, a vestimenta gera impactos visuais e invariavelmente comunica. A opção de não usar roupas e expressar os corpos nus também é uma escolha estética importante que também transmite densa carga imagética.

O vestir, apesar de já impregnado de superficialidades, é capaz de estabelecer uma diversidade de relações que perpassa entre o mais simples e delicado ao mais complexo e suntuoso. É dizer, há uma intensa carga simbólica que transita do ritual ao fetiche com uma infinidade de sensações. Explorá-las dentro da liberdade sexual/gênero é afunilar um percurso artístico que abre para um leque de inquietações

Um simples laçarote, um pedaço de pano qualquer, oferece uma imensa possibilidade de (re)significação dos materiais, do espaço e dos corpos. Isso pode provocar rupturas que dialogam com a tradição, gerando novas relações e formas de expressão. Com recursos da moda, pode-se provocar fricções em paradigmas, interferindo na cultura e em todo modo de pensar e agir de uma sociedade. Transformando inclusive modelos de expressão/apreciação.

Diante deste potencial de tecer a histórias, a humanidade virou refém da criação existente no processo desenvolver suas vestes e acabou por se aprisionada a códigos, valores e rituais. Há personagens fixos com padrões específicos a serem cumpridos, exigindo, portanto, figurinos tão rígidos quanto os papéis sociais arbitrariamente cunhados. Por isso existem peças de roupa certas para pessoas certas e as erradas que amarguem seu não lugar ou ambiente de não aceitação nesse círculo hermético.

Isto é muito claro nas relações de gênero. Está enraizado na nossa cultura quais são as roupas de menino e de menina. Estas relações transcendem a vestimenta e se aplica a qualquer elemento relacionado ao corpo, tais como cores, maquiagem (privilégio/ônus das mulheres), sapatos, penteados e quaisquer formas de caracterizar/enfeitar/manifestar o corpo estão extremamente repartidas na dicotomia feminino/masculino.

É dizer, uma construção social pré-definida apropria-se dos nossos corpos e dita como que devemos expressar-nos de acordo com nossos gêneros, que por sua vez são determinados pelos sexo biológico. Qualquer comportamento ou manifestação que destoem do gênero pré-estabelecido ao indivíduo é visto com estranheza e choque numa tentativa tirana de reprimi-lo e readequá-lo ao padrão.

Tais anulações recaem não só sobre as roupas destoantes, mas sobre todo o corpo: o gestual, a voz, o caminhar… toda expressão corporal. Para esta pesquisa artística performática, o foco é entender a significação de objetos que marcam gênero e a relação das pessoas e seus corpos com estes. Mais do que uma mera compreensão, a intenção é provocar uma desconstrução das “verdades absolutas” inventadas sobre gênero, subvertendo-as através dos corpos vestidos, (des)vestidos e nus.

Especificando mais ainda, o objeto deste experimento, há ainda a pretensão de captar o fetichismo (sexual principalmente) atrelado às roupas. Muitas peças são objetos de desejo relacionados ao consumo e apegos materiais, porém existem àquelas que despertam desejos sexuais, e não precisam ser apenas as de fórum íntimo, como calcinhas que em Portugal também é cueca. Já na nomenclatura dos objetos tem-se uma inversão de gêneros, posto que no Brasil, cuecas designam apenas as peças masculinas, sendo calcinhas as femininas. Há nas palavras já um mote para desconstrução das relações de gênero.

Pelo fato da ideia inicial ter partido da “Alegrias de uma Calcinha” as estéticas femininas e por conseguintes as vestes são o fio condutor deste processo. Afinal, a mulher e tudo que está relacionado a ela sempre esteve em segundo plano e para a sociedade o universo femme é tachado de supérfluo, fútil, inferior e banal, reforçando a objetificação da figura feminina.

A mulher foi subjugada a um mundo de rosas e frufrus. O homem foi condenado à virilidade, à força e brutalidade. Mas estas relações aos poucos vão se rompendo e se transpassando. O processo emancipatório da mulher é avançado e elas aos poucos quebram dogmas e tabus. Os homens parecem estagnados e são incapazes de dialogar com as poéticas do feminino, uma saia ou uma calcinha são peças inaceitáveis para um homem “respeitável”.

Nesta relação corpo, corpo (des)vestido e corpos nus, existe um apelo sensorial forte à imagem e esta é a raiz do trabalho. Por isso a escolha da vídeoperformance não só para registrar, mas para esmiuçar e aprofundar todo o processo. Explorando a estética das imagens, tudo ao redor que se conecta com estas relações é objeto de pesquisa. Pinturas, vitrines, grafites, pichos, varais e demais poéticas do cotidiano que causem impacto visual darão suporte para ampliarmos as potencialidades desta temática. A poesia neste trabalho será captada por meio de imagens e movimentos, que culminem ou não na performance. Por isso, se faz presente prioritariamente o uso do vídeo.

Todavia, vale ressaltar que é válido qualquer meio capaz de absorver a tensão poética entre libertação e opressão existente nos elásticos de calcinhas que não deixam de ser cuecas.