From afar it was an island – Novo Projecto de João Fiadeiro/2018

Conceito e Direcção João Fiadeiro

Co-direção Carolina Campos

Performers e co-criadores

Adaline Anobile, Carolina Campos, Iván Haidar, Julián Pacomio, Nuno Lucas

Espaço Cénico Nadia Lauro

Espaço Sonoro Jonathan Saldanha

Desenho de Luz e Direcção Técnica Leticia Skrycky  

Dramaturgia Leonardo Mouramateus

Assistência Figurinos: Gabriela Forman

Objetos: Bruno Bogarim

Estagiário e Tradução: Mauro Soares

Contabilista: Silvia Guerra

Material Gráfico: Buumm design

Encomenda Alkantara Festival 2018

Co-produção Alkantara /Teatro D. Maria II (Lisboa)

Festival DDD (Porto, Matosinhos e Gaia),

Teatro Viriato (Viseu)

Teatro Avenida (Castelo Branco)

Centre National de la Danse (Paris)

Produção Executiva RE.AL/Sinara Suzin

Difusão Something Great

Residências Artísticas Atelier Real, Espaço Alkantara e Armazem 22

Projeto financiado por República Portuguesa – Cultura / DGArtes – Direção-Geral das Artes

Apoio Câmara Municipal de Lisboa / Polo Cultural Gaivotas | Boavista

 

Agradecimentos             

Ethan Ocean Won,  Annika Pannitto, Fabienne Wong, Kayde Anobile, Rita Quaglia, Ali Moini, Marta Morais, Jin Young Park, Konrad Kaniuk, Teatro Nacional São Carlos, Teatro Maria Matos.

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Apresentação

From afar it was an island (De longe era uma ilha) é o título de um livro para crianças do designer italiano Bruno Munari. No livro, Munari fotografa um conjunto de pedras e rochas, organizando-as de forma a ilustrar alguns dos princípios e premissas que sustentam a sua prática e pensamento. Entre elas, a constatação simples de que a percepção está intimamente ligada ao contexto e à relação, bastando uma pequena mudança de perspectivava ou escala para uma linha se transformar numa estrada, uma poeira num planeta, uma pedra numa ilha.

De longe, aquilo que os performers dizem e fazem, aparenta fazer sentido. Há, nos seus deslocamentos, uma lógica – uma sensação de princípio, meio e fim – que reconhecemos nos nossos corpos e nos corpos com que nos habituamos a interagir (reais ou ficcionais, presentes ou ausentes). Mas à medida que o tempo avança, percebemos que eles dirigem-se para nenhum lado e que não representam nada mais do que as suas presenças. Não quer dizer que andem em círculos. Eles deslocam-se e dirigem-se para algum lugar. Mas o lugar para onde vão é aquele de onde nunca saíram. Um lugar onde o tempo está, ao mesmo tempo, suspenso e em expansão. Onde o fim e princípio se confundem, o dentro e o fora se invertem e o centro e a periferia se misturam. Se formos bem sucedidos (se encontrarmos esse lugar e o conseguirmos partilhar), cumprimos aquela que nos parece ser a única função de uma obra de arte: oferecer-se de forma a ser imaginada.

João Fiadeiro

O CINEMA EM FROM AFAR IT WAS AN ISLAND

Veronika: Que jeito estranho de fazer a cama.

Alexandre: Eu vi num filme. Os filmes servem para isso. Para aprender a viver, para aprender a fazer a cama.

“A mãe e a puta” de Jean Eustache.

O cinema é uma máquina eficiente de produção e armazenamento de gestos.  Assim deveriam pensar os cientistas que no século XIX ajudaram a aperfeiçoar o dispositivo cinematográfico a fim de estudar a mecânica dos corpos. É possível extrair do cinema gestos de natureza múltipla, posturas e atitudes variadas, ações revestidas da ideologia de sua sociedade e de sua época, e com tais gestos montar diferentes coleções. Como a coleção (incompleta) de “Marilyn Monroe a vestir-se apressadamente entre 1952 a 1955”:

Minuto 6 do Niagara de Henry Hathaway: meias de vidro, robe de seda, chinelos (fora de quadro);

Minuto 24 de Don’t Bother no Knock, dirigida por Roy Ward Baker: robe de seda e brincos de pérola;

Entre os minutos 23 e 25 de The Seven Year Itch de Billy Wilder, inteiramente fora de quadro e enquanto o seu pretendente apaixonado espera ansioso no andar de baixo: conjunto cor de rosa.

Uma coleção que  fala mais do cinema americano, do cinema, e dos americanos, nessa ordem, do que de Marilyn. Se tirarmos a esses gestos o passado e o futuro, ou seja, se tirarmos ao atirador a motivação para disparar o revólver, mas também o alvo para o qual ele aponta, teremos uma gestualidade sem funcionalidade, em que o gesto é fim em si mesmo: uma Marilyn a vestir-se para falar com ninguém, para ir a festa nenhuma, para não encontrar rapaz algum. Uma Marilyn a vestir-se infinitamente, como num filme de Andy Warhol. Teremos algo que é só coreografia.

Agamben: “O que imita o mímico? Não o gesto do braço com a finalidade de pegar um copo para beber ou com qualquer outro escopo (…). O mímico imita o movimento, suspendendo, entretanto, sua relação com um fim.” Ainda assim, todo gesto possui uma partícula de memória e outra de expectativa suficientes para nos manter atentos.  Alguém que enche um copo de água deve ter sede, do mesmo modo, um copo de água cheio deverá ser bebido.

“From afar it was an island” é coreografado com gestos armazenados pelo cinema, todo “escrito” com essas “palavras”, e com a tensão que é mantida no interior desses fragmentos. Um conjunto de mais de uma centena de filmes dos quais  foram extraídas pessoas que se vestem, caminham, param, esperam, conversam…

O raccord, próprio da linguagem cinematográfica, será o princípio capaz de articular relações entre esses gestos: alguém enche um copo de água na mesa da sua cozinha CORTA PARA outro alguém que derruba um copo de vodka no balcão de um bar. Na mesa de edição o raccord que uniria esses dois gestos não esconderia o salto espacial e temporal que separa as duas cenas, que podem, inclusive, ser de dois filmes diferentes. No teatro, no entanto, temos a unidade espacial e temporal do palco, e temos o corpo que se apropria e une as duas cenas, sem que possamos notar o instante exato em que uma cena acaba e outra começa. Os gestos acumulam-se, o futuro não é previsível e o passado não é escrito. Os gestos são contidos no presente da sua própria presença, e no entanto continuam.

Em “From afar it was an island” o gesto fixado pelo cinema é possuído pelo fantasma do gesto da dança: o esquecimento.

Leonardo Mouramateus

 

 

 

LISTA DE FIMES E DIRETORES DE ONDE A COREOGRAFIA FOI ESTRAÍDA.

A Falecida, Brasil, 1965, Leon Hirszman

Aksharaya, 2005, Sri Lanka, Asoka Handagama

Al primo sopro di viento, Italia, 2002, Franco Piavoli

Angst vor der Angst, Alemanha, 1975, Rainer Werner Fassbinder

Aurora, 1927, EUA, F. W. Murnau

Banshun, Japão, 1949, Yasujiro Ozu

Benilde ou A Virgem Mãe, 1975, Portugal, Manoel de Oliveira

Bungalow, 2002, Alemanha, Ulrich Köhler

Camp de Thiaroye, 1988, Senegal, Ousmane Sembene

Catene, Itália, 1949, Raffaello Mattarazzo

Certain Women, 2016, EUA, Kelly Reichardt

Christine, UK, 1987, Alan Clarke

Chungking Express, 1994, Hong-Kong, Wong Kar-Wai

Dead Ringers, 1988, Canadá, David Cronenberg

Dial M for Murder, 1954, EUA, Alfred Hitchcock

Die bitteren Tränen der Petra von Kant, 1972, Alemanha, Rainer Werner Fassbinder

El Camino, Espanha, 1963, Ana Mariscal

El Castillo de la pureza, 1972, México, Arturo Ripstein

El Dirigible, Uruguai, 1994, Pablo Dotta

El Espíritu de la Colmena, 1973, Espanha, Victor Erice

En la ciudad de Sylvia, 2008, Espanha, José Luis Guerín

Ensayo de un crimen, México, 1955, Luis Buñuel

Evariste Galois, 1967, França, Alexandre Astruc

Faces, EUA, 1968, John Cassavetes

Film, EUA, 1965, Alan Schneider & Samuel Beckett

Filme Demência, 1986, Brasil, Carlos Reichenbach

Gamperaliya, 1963, Sri-Lanka, Lester James Peries

Gishiki, 1971, Japão, Nagisa Oshima

Gli occhi, la bocca, 1982, Itália, Marco Bellocchio

Idi i smotri, Rússia, 1985, Elem Klimov

Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto, 1970, Itália, Elio Petri

Je vous salue Marie, 1985, França, Jean-Luc Godard

Juan Moreira, 1973, Argentina, Leonardo Favio

Juízo, Brasil, 2007, Maria Augusta Ramos

Kōhī Jikō, Japan/Taiwan, 2003, Hou Hsiao-Hsien

Krylya, 1966, Rússia, Larisa Shepitko

L’ Aventura, Itália, 1960, Michelangelo Antonioni

La Coquille et le clergyman, França, 1928, Germaine Dulac

La Folie de Almayer, França, 1991, Chantal Akerman

La Libertad, Argentina, 2001, Lisandro Alonso

La Notte, 1961, Italia, Michelangelo Antonioni

La notti dei diavoli, 1972, Itália, Giorgio Ferroni

La prise de pouvoir par Louis XIV, 1966, França, Roberto Rossellini

La ragazza con la valigia, 1960, Itália, Valerio Zurlini

Last Days, 2005, EUA, Gus Van Sant

Le Livre de Marie, França, 1985, Anne-Marie Miéville

Le Mirage, França, 1991, Jean-Claude Guiguet

Les amants réguliers, França, 2005, Philippe Garrel

Les rendez-vous d’Anna, 1978, França, Chantal Akerman

Los Muertos, Argentina, 2004, Lisandro Alonso

M, Alemanha, 1931, Fritz Lang

Matka Joanna od Aniołów, Polônia, 1961, Jerzy Kawalerowicz

Messidor, 1979, Suíça/França, Alain Tanner

Monte Carlo, EUA, 1930, Ernst Lubitsch

Mr. Klein, 1976, França, Joseph Losey

My Brother’s Wedding, 1983, EUA, Charles Burnett

Naked Dawn, 1955, EUA, Edgar G. Ulmer

Nattvardsgästerna, Suécia, 1963, Ingmar Bergman

Near Dark, 1987, EUA, Kathryn Bigelow

Never Fear, 1949, EUA, Ida Lupino

Oasis, Coréia do Sul, 2002, Lee Chang-Dong

O caso dos Irmãos Naves, 1967, Brasil, Luiz Sérgio Person

O Fantasma, 2000, Portugal, João Pedro Rodrigues

O Sangue, Portugal, 1989, Pedro Costa

O Som da Terra a Tremer, Portugal, 1990, Rita Azevedo Gomes

O Território, 1981, Portugal, Raúl Ruiz

O Viajante, Brasil, 1999, Paulo César Saraceni

Palavra e Utopia, Portugal, 2000, Manoel de Oliveira

Pandora’s Box, 1930, Alemanha, G. W. Pabst

Permanent Vacation, 1980, EUA, Jim Jarmusch

Phenomena, 1985, Itália, Dario Argento

Planet of the vampires, 1965, Itália, Mario Bava

Possession, 1981, França, Andrzej Żuławski

Procès de Jeanne d’Arc, França, 1962, Robert Bresson

Proshu Slova, 1976, Rússia, Gleb Panfilov

Qingshaonian Nezha, 1992, Taiwan, Tsai Ming-Liang

Recordações da Casa Amarela, 1989, Portugal, João César Monteiro

Rope, 1948, EUA, Alfred Hitchcock

Río escondido, México, 1948, Emílio Fernandez

Samba Trouré, Burkina Faso, 1992, Ouedraogo

Sans toit ni loi, 1985, França, Agnés Varda

Schwarze Sunde, Alemanha, 1990, Jean-Marie Straub & Danièle Huillet

Steaming, 1985, UK, Joseph Losey

Suna no Onna, Japão, 1964, Hiroshi Teshigahara

Série Noire, 1979, França, Alain Corneau

Tabiate bijan, Irã, 1974, Sohrab Shahid Saless

Tau ban no hoi, Hong Kong, 1982, Ann Hui

Terra em transe, 1967, Brasil, Glauber Rocha

The Heartbreak Kid, 1972, EUA, Elaine May

The New York Ripper, 1992, Itália, Lucio Fulci

The Student Prince in Old Heidelberg, EUA, 1927, Ernst Lubitsch

The Territory, 1981, Portugal, Raúl Ruiz

Two friends, 1986, Austrália, Jane Campion

Ugetsu Monogatari, 1953, Japão, Kenji Mizoguchi

Ukigumo, Japão, 1955, Mikio Idrissa Naruse

Underworld U.S.A., 1961, EUA, Samuel Fuller

Uri Seonhui, 2013, Coréia do Sul, Hong Sang-Soo

US GO Home, França, 1994, Claire Denis

Vargtimmen, Suécia, 1968, Ingmar Bergman

Vidas Secas, 1963, Brasil, Nelson Pereira dos Santos

Vive L’amour, 1994, Taiwan, Tsai Ming-Liang

Vivre Sa vie, França, 1962, Jean-Luc Godard

Zhantai, China, 2000, Jia Zhangke

Él, 1953, México, Luis Buñuel

Últimos días de la víctima, 1982, Argentina, Adolfo Aristarain

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